Promotor
Associação Zé dos Bois
Breve Introdução
Aïas ou Ájax Telemônio ou, simplesmente, Ájax, o Grande, era, no fim da guerra de Tróia, tido como o segundo melhor guerreiro grego, apenas atrás de Aquiles. Com a tentativa gorada de assassinar Ulisses, e o seu exército, Ájax cai em desgraça e suicida-se. Mas o seu meio-irmão, Teucro, apesar da desonra do suicídio e da oposição de Ágamemnon e Menelau, decide prestar-lhe as honras devidas.
Quem, como Ájax, levado por instintos primários como oímpeto de vingança por uma injustiça, não foi já vítima de ilusões causadas seja pelas suas próprias fragilidades, por intervenção de outros ou por um acontecimento ou determinado contexto social? A era da informação ou, melhor, da descredibilização da informação e a névoa que tantas vezes envolve as suas fontes é, hoje, o contexto ideal, para o desenvolvimento e propagação de discursos políticos, medidas sociais e ideologias cruéis, injustas, anti-democráticas e regressivas. Assim, desenha-se a pouco e pouco o caminho para o total eclipse da declaração universal dos direitos humanos e da dignidade humana e dos direitos de todas as entidades vivas sencientes e, assim, se permitem, vulgarizam e disseminam actos profundamente desumanos. Como enfrentar esta era, este tempo, esta ameaça à degradação completa e abismal dos nossos valores civilizacionais?
Vivemos, pois, constantes ataques à democracia e à evolução civilizacional. A ausência de diálogo, os extremismos e o ruído ensurdecedor do nosso tempo ganham força e perpetram o seu ataque através da fragilização do pensamento e, consequentemente, do discernimento. Que fazer perante a demência social instalada, perante o histerismo manifestado no consumismo suicida e na velocidade desenfreada? Ájax de Sófocles é uma reflexão sobre os limites do poder e é também, parece-nos, uma resposta às ameaças totalitárias e totalizantes. Uma resposta que vem do fundo da nossa civilização e do berço da democracia.
Partindo do texto de Ájax, provavelmente a mais antiga tragédia de Sófocles, este espectáculo propõe-se, perante o contexto que vivemos, à apresentação de um teatro profundamente humano que, não se esgotando na re-clarificação das palavras que o fundamentam, se constrói sobre o confronto ritual entre silêncio, sombra, luz, textura, movimento e paisagem sonora, e também, sobretudo, na energia animista que o estabelece, proporcionando uma partitura generosa na distância com que convida tanto à apreensão pela sensibilidade como à reflexão sobre as estruturas mentais que seguimos reproduzindo. E, possivelmente, sobre aquelas outras estruturas que possamos ainda edificar mais ou menos na direcção dos papéis que queremos representar e ver representados no seio das nossas famílias e outras empresas de carácter omnipessoal.
‘Eu sou. Nós somos. Isso é suficiente. Agora há que começar. A vida foi-nos posta, e sempre esteve, nas nossas mãos e nos nossos braços. Em si, é verdade, parece ter-se tornado vazia há muito e parece balançar-se para trás e para a frente sem sentido. No entanto, não vamos esquecer: mantemo-nos firmes em querer ser a origem e o fim’.
Tradução livre de The Spirit of Utopia de Ernst Bloch.
TEXTO: Sófocles
ENCENAÇÃO: Cláudio da Silva
INTERPRETAÇÃO: Cláudio da Silva, Crista Alfaiate, Marcello Urghege e Nuno Lucas
DRAMATURGIA: Carolina Dominguez, Cláudio da Silva e Rita Ferreira
ASSISTENTE DE CENA: Miriam Vale
CENOGRAFIA: Gustavo Sumpta
FIGURINOS: Colectivo
ADEREÇOS: Pedro Paiva e Gustavo Sumpta
DESENHO DE LUZ: Pedro Paiva
MONTAGENS E OPERAÇÃO DE LUZ E SOM: Rafael Ligeiro
MÚSICA: João Martins
PRODUÇÃO: Soluços D’Inverno
RESIDÊNCIA ARTÍSTICA: TMJB, ZDB e Palettentheater Kollektiv
APOIO: Fundação GDA | República Portuguesa - Cultura | DGARTES - Direção-Geral das Artes
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